quarta-feira, outubro 11, 2006

Sem título

Já estava cansado daquele corredor de paredes envelhecidas e luz doentia. Não agüentava mais a visão daquele espelho à sua frente, tão encardido que mal refletia as imagens do corredor. Ecoam passos lentos e pesados no corredor. O medo preenche seu coração. Ele sente um formigamento e um mal-estar insuportável. Precisa se proteger. Procura alguma porta aberta mas não obtém sucesso. Então, defronte a uma antiga porta de madeira sinalizada com algumas letras que não conseguiu ler, percebe um carpete surrado.

Sua esperança é encontrar uma chave de emergência debaixo deste. A sorte estava ao seu lado: lá estava ela, envolta num pequenino monte de sujeira de sabe-se lá quantos anos de existência. Não pensou duas vezes: pegou para si a chave sem se importar com o fato de que em cinco minutos aquele micro-ecossistema estava prestes a formar um mofo superdesenvolvido e único em toda a estupidamente grande imensidão do Universo. Uma perda imensa para todo o nosso pequeno fragmento do Cosmo.

Testou a chave na porta: ela se abriu. Empurrou a porta; esta fez um rangido desagradável. Trancou-a o mais rápido possível. Foi só depois disso que atentou ao quarto em que estava. Parecia ter sido limpo recentemente. Havia nele apenas um móvel: uma mesinha sobre a qual estavam apoiados um telefone e uma secretária eletrônica.

Parecia inacreditavelmente impossível mas lá estava ela. Uma luz vermelha fraca e piscante atrapalhava a morbidez da escuridão daquele quarto impecavelmente limpo. A secretária eletrônica alertava: havia mensagens não escutadas.

Os passos pareciam ter cessado havia cinco minutos. Pensou em checar os recados. Seu dedo indicador já estava a poucos centímetros da secretária quando os passos recomeçaram, um pouco mais lentos e descompassados que os anteriores. Mais uma vez o medo tomou conta de seu ser. Desejava agora voltar para casa e plantar aquele canteiro de azevinho na frente de sua antiga morada. Queria poder ver as andorinhas fazendo ninho no telhado uma vez mais. Anseava por degustar aquele chá de bergamota uma última vez...

Enquanto imaginava momentos melhores se distraiu e, sem querer apertou o botão de rebobinar da secretária. O barulho o fez acordar de seus devaneios. O ruído da secretária parecia aterrador em meio àquele silêncio interrompido ocasionalmente por passadas distantes no corredor.

Permaneceu por alguns instantes daquela forma: de pé, imóvel, com o dedo indicador sobre o aparelho e os olhos entreabertos. Depois que se recobrou do estado de choque resolveu sentar ao lado da mesa e ouvir os recados, afinal precisava preencher seu tempo para desviar o mais rápido possível seus pensamentos daquele local desagradável e do destino que o aguardava.

Após alguns segundos, determinado, optou por apertar o play. Havia apenas três mensagens. Ouviu atento a todas elas. O que escutou foi o seguinte:
1- “ Atenção, no terceiro bipe teriam sido 23 horas e 42 minutos... Bipe... Bipe... Biiiiiiii...”;
2- “Fandango!”;
3- “É a vovó! Você deixou seu ursinho na minha casa!”.

Ficou confuso. E não é para menos, não são os tipos de recado que se espera ouvir. Resolveu ignorar o assunto e, quando julgou que os passos no corredor haviam cessado, resolveu deitar-se no chão, onde dormiu excelentemente mal.

No dia seguinte acordou surpreendido com o barulho do que julgava ser um aspirador de pó. O som vinha do corredor. Aproximou-se da porta para ouvir melhor. Chegou à tempo de ter seus pés solapados pela poeira que entrou pela fresta da porta, ao que tudo indica usavam um expirador de pó. Resolveu sair de lá e checar o corredor. Não poderia passar o dia inteiro naquela sala estranha.

Ao abrir a porta deu de cara com uma faxineira que, bastante surpresa, perguntou-lhe:

_O que fazes aqui? Como entraste? Não sabes que esta exposição fecha aos domingos? Ei, não me diga que te trancaram aqui...

_Hã?_ disse confuso.

_Olha, faz o seguinte, vais embora logo e eu fico quieta, tá ok? Nenhum de nós quer confusão,não? Para achar a saída é seguir até o fim do corredor.

_Ah!_ exclamou ele ridiculamente.

Caminhou até o fim do corredor e foi embora. Jurou nunca mais exagerar na bebida, principalmente quando fosse visitar instalações de arte moderna.

*Deveria haver um motivo para essa história ser divulgada, mas no ímpeto de inspiração a justificativa desapareceu quando o autor vislumbrou uma possibilidade que também foi esquecida após um acidente ridículo.

6 Comments:

At outubro 15, 2006 5:32 PM, Blogger Normal do Rócio said...

Hahahahaha!
Não entendi nada!

 
At outubro 16, 2006 1:36 PM, Blogger *Renata Costa* said...

Uia sobrinho! Vc se superou... hahahahahaha

Deviam colocar uma placa de proibido bêbabdos nessa exposição
;)

 
At outubro 18, 2006 8:30 PM, Anonymous Mnq said...

Querido, não estou aqui comentando seu blog. Ainda. Vim aqui para responder seu comentário no Ensaio. Muito obrigada! Você me lembrou o motivo de eu ter criado um blog! Não pretendo desativá-lo, mas atualizá-lo com a freqüência que o Flávio o faz. =P

Aquela história de meu-querido-diário estava enfadonha e eu não sabia como lidar com ela. Acabei acreditando que era isso que eu deveria fazer sempre. Esqueci que só queria um terapeuta gratuito. Obrigada, querido! Beijos!

 
At outubro 24, 2006 7:07 PM, Anonymous muta said...

ai, ai... teria medo, mesmo sóbrio, dessa exposição! hahaha.

muito bom lord!

inté.

 
At outubro 26, 2006 4:12 PM, Blogger Bárbara Amelize said...

Hahahahaha.. Oh.. eu falo que a cachaça é perigosa! Mas, o lado positivo é que a mente viaja tanto que permite participar de histórias assim. Ou contar. Aliás, você bebeu?! hahahahaha

Beijo, querido!!!

 
At novembro 14, 2006 5:15 PM, Anonymous Anderson said...

Oee
Muito bom seu texto =]
hehehehehe
Era de se esperar de você xp
Grandes trabalhos
ahsieusaheas
Visitarei-o mais vezes
Até mais

 

Postar um comentário

Links to this post:

Criar um link

<< Home