sábado, setembro 16, 2006

Saúde, Vida e Capitalismo

Saúde, Vida e Capitalismo
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Não existe palestra mais manjada para ensino médio do que as que tratam de sexualidade e DSTs. E, como em toda palestra, os alunos ficam bastante felizes em deixar a sala de aula, nem que seja por apenas 40 minutos. Nesta quinta-feira, dia 14, tivemos uma palestra sobre (adivinhe) DSTs no colégio. Segue abaixo a história.

Aula de geografia: o grupo 7 começa a apresentação de seu trabalho sobre a China. Surge a coordenadora na porta. Ela chama a professora. Ouve-se um “hmmmmmm” na sala; a concentração do grupo e de toda a sala foi por água abaixo. Após um breve diálogo a professora anuncia: vamos ver mais uma palestra sobre DSTs. As reações são diferentes: alguns reclamam dizendo que seria mais do mesmo, outros já se mostram felizes e até mais acordados pelo simples fato de escapar da aula dupla de geografia.

Na sala da palestra surge, após um atraso de 5 minutos, um homem vestido de branco e de olhar demoníaco. “Não quero que vocês me chamem de doutor ou professor, essa é uma palestra informal, podem me chamar de André”. Atenção nessa fala, o palestrante afirma ser médico e se chamar André (estranho não falar o sobrenome, não?)... Veremos.

“Posso fazer dois tipos de palestra e isso” - diz “André” com um olhar maléfico- “vocês vão escolher: ou eu faço cada um responder às minhas perguntas (!) ou fazer uma palestra em que todo mundo responda ao mesmo tempo. Qual vocês preferem?”. Obviamente a segunda opção foi escolhida.

“Olha pessoal, eu vou mostrar fotos aqui meio fortes. Ééé, é o que normalmente aparece lá no nosso ambiente de trabalho. Se alguém ficar chocado, passando mal avisa ‘ó André, não to legal’. Eu já vi gente desmaiando quando viu isso. Não deixe você desmaiar. Me avisem ok?”. Esse argumento foi usado apenas para chamar a atenção. Conseguiu.

Então começa a palestra: aborto é o 1º tema. Mostra fotos de bebês abortados com a seguinte introdução “agora vejam ESSA foto!”. Depois diz “por que isso acontece? Não houve prevenção! Por que não houve prevenção? Não tinha informação!”. “André” ressalta que aborto é ilegal e só pode ser feito em caso de estupro ou de feto defeituoso. Entretanto também faz questão de destacar que o custo de cirurgia para aborto é de 800 reais. Aqui ocorre a primeira contradição do palestrante.

Um dos alunos levanta o braço, segue o diálogo:
Aluno: “Por que que as pessoas não deixam pra adoção ao invés de abortar?"
“André”: "O que você quis dizer com isso?” - ele não esperou a resposta - "Eu também penso como você....É, né... Temos que entender essas pessoas. Vou falar sobre isso depois".

Agora vem a parte mágica da palestra: “quando vocês estão doentes, aonde vocês procuram informações?”.
“Pais – não pode confiar!
Médico –pode confiar, mas não tem médico 24 horas. Nem pro rico tem!
Enfermeiro – não sabe de nada, não fez curso de medicina.
Farmacêutico – mesmo caso do enfermeiro.
Amigos – sabem tanto quanto ou ainda menos que você.
Internet – preciso falar algo?
Professor – claro! Você vai chamar a professora de matemática e dizer às 4 da manhã : ‘Professora, acho que estou grávida’. Não dá pra confiar também gente!
Livro – Ah, agora sim! Esse dá pra confiar. É o único que dá pra confiar gente. Só que um bom livro de medicina custa, em média, 500 reais. Mas tratando de saúde, isso é caro ou barato?”.
“Barato!” reponde o coro de alunos-zumbi. Estava preparado o terreno.A mensagem superliminar havia sido transmitida.

Próximo tema: AIDS. Argumento em prol do livro: o custo do tratamento da AIDS é a vida, do livro é 500 reais. Depois seguiram mais duas doenças e mais três fotos que quase estragaram o apetite.

No que parecia ser o fim da palestra vem a pergunta: “ pessoal, nesses quarenta minutos de palestra o que vocês me dizem? Valeu a pena ou não valeu?”. “Valeu” responde o mórbido coro. Foi então que veio o anúncio : “Legal pessoal. Lembra do que eu falei dos livros de medicina custarem 500 reais? Então eu tenho aqui comigo, ah, eu sei que metade de vocês está com aquela cara de ‘eu sabia!’. Mas calma, deixa eu terminar. Tenho aqui comigo esses três livros com TUDO de medicina, todas as áreas, todas as doenças, uma seção de perguntas e respostas, tratamento, perguntas e repostas, profilaxia, sintomas, enfim, tudo mesmo. Agora, eu não vou vender isso pra vocês por 500 reais, porque vocês vão receber isso de GRAÇA! [aplausos dos zumbis ao fundo] O projeto [nome reservado] faz isso com todas as escolas, e essa foi a vez da escola de vocês!!!”.

Em meio aos aplausos [que duraram muito mais do que deveriam] vem a notícia: “Só que eu não vou ter livros pra todo mundo. Na verdade não tenho livros nem pra metade de vocês...” . A alegria se desvaneceu. Ele alega “Mas gente, olha só, é de graça! Quem levantar a mão primeiro ganha. 3, 2, u-segunda vantagem!” Nesse momento todos ficaram alvoroçados. André começou a escrever na lousa uma série de vantagens. Passados uns 15 minutos ele pergunta: “Gente, o que é que falta?”. “O preço!” respondem os alunos já não tão zumbificados.

André, ao ver que estava perdendo o controle das mentes fala rápido: “Eu não quero dinheiro, eu não quero seu cheque, eu não quero seu cartão. Isso aqui é desenvolvido pelo projeto [nome reservado]. Só vou passar esse boleto, vocês vão assinar e pagar no banco B.Q. no dia 10/11. Vocês sabem qual é o banco B.Q. gente? Qualquer banco, isso mesmo! Mais um detalhe, vocês nunca vão achar esse livro nas melhores livrarias, vocês só podem adquiri-lo AGORA!”.

Nesse instante escreve na lousa 399. Então diz “Calma gente! Falta um zero: 3990”. “Ah, esqueci de uma coisa: 5x de 3990”. A gracinha já tinha durado tempo de mais, então André termina logo: “5x de 39,90 gente! Um normal custaria 500 reais, vocês podem levar por 5 de 39. E desse dinheiro nada cai do meu bolso, esse é só o custo de encadernação!Quem quiser levanta a mão que eu passo o boleto, mas gente pelo amor de Deus não saiam da sala para pegar canetas! Eu tenho algumas comigo”.

Metade dos alunos levanta a mão. Eu devo confessar aqui que não ia levantar a mão, porém a coerção social foi tamanha que acabei cedendo. Tínhamos que nos apressar para ir até o carro do “André” buscar o livro, ele tinha que sair da cidade para chegar cedo em “São Paulo”. Lá o recebemos com um sorriso no rosto [que não durou muito]. Terminada a palestra e a entrega de livros os alunos poderiam descer para o intervalo.

Eu aproveitei o intervalo para folhear o livro. Que sorte a minha. O livro tinha apenas e unicamente uma seção de perguntas e respostas. Não tinha nem um décimo do que o palestrante havia divulgado. Era óbvio o porque de não ser vendido nas melhores livrarias.Também estava claro o porquê da palestra acontecer no dia que o professor de biologia não estava na escola. Quase comi meu braço de tanto desgosto. Comecei um alarde. Era preciso. Convenci todos da minha sala a ir discutir com a coordenadora.

Ela e a diretora (que também foi alertada) acharam um absurdo e entraram em contato com o grupo. Nesse ínterim as pessoas do 1º e do 3º colegial que também adquiriram o livro ficaram sabendo da nossa tentativa de resgatar nosso dinheiro e também foram reclamar.
Depois de uma hora de tensão chegava-se ao resultado: todos poderiam devolver os livros sem problema algum, seria enviado um cancelamento à cada aluno na segunda-feira e o advogado da escola já tinha sido alertado.

Agora vamos citar alguns atos ilegais de “André”:
1- tentou criar um contrato com menores, esses contratos não tem validade por lei;
2- fez propaganda enganosa do livro, primeiro por mentir sobre seu conteúdo e depois por alegar que era de graça;
3- não deu o seu nome completo, em caso de erro de impressão como faríamos para encontrá-lo?
4- no contrato com o colégio estava claramente especificado que a palestra não tinha e nem poderia ter qualquer ligação com a divulgação e/ou venda do livro...

Mais tarde ainda descobrimos que “André” (se é que ele não mudava de nome em cada cidade) não era médico, sequer enfermeiro. Tratava-se de um vendedor. E mais, a corrida viagem deste para São Paulo teve uma escala em Avaré, onde ele deu uma certa palestra sobre DSTs.

3 Comments:

At setembro 16, 2006 10:50 PM, Blogger Normal do Rócio said...

Tomara que o pessoal de Avaré ou de qualquer outra escola 'escolhida' encontre esse texto.

Percebeu que Avaré rima com André? Ele deve pensar sobre o nome da próxima cidade e um nome que rima com ele.

 
At setembro 19, 2006 12:50 PM, Blogger *Renata Costa* said...

Nossa Stef. Tô chocada! O_o

Olha, sinceramente esse cara só representa uma pequena parcel da enorme quantidade de vigaristas que existem nesse mundo, só que o maior erro foi o da escola que não checou as credenciais do malandro antes de permitir que ele começasse a palestra uhn?

Mas, muito bom o texto que fica de alerta aos desavisados... tesc tsc... as vezes sinto vergonha das pessoas desse país

 
At setembro 20, 2006 10:55 AM, Anonymous Mnq said...

Hahaha. Coincidência. Este sábado tive uma palestra (opcional) de biologia sobre sexualidade. Mas a minha foi bem mais tranqüila. A mulher não queria vender nada, foi organizado junto à coordenação de biologia e de certa forma, foi bom. A mulher sabia lidar com as pessoas e o bando de NERDs que acordaram cedo no sábado para irem às palestras ficaram bem a vontade. Foi bem produtivo. Detalhe: a mulher pergunta "Qual é a primeira coisa que devemos verificar numa embalagem de camisinha". Resposta de todos: "Validade"; "E a segunda?", momento Chaves de uma garota "O sabor!". ¬¬ Muito engraçado...

E esse André tentou enganar as pessoas erradas, tadinho... Trouxa.

 

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